Onde a esperança e a possibilidade de transformação se fazem presentes
Destaque na categoria de Melhor Curta-Metragem em Live Action na edição do Oscar de 2025, Anuja é um aclamado curta lançado em 2024. Com apenas 22 minutos de duração, a narrativa é apresentada a partir de uma fábula sobre um mangusto – um pequeno mamífero carnívoro, parente distante dos gatos e dos furões –, servindo como uma metáfora central para a jornada de nossa protagonista, Anuja.
Na fábula, na tentativa de salvar uma menina – filha de seus donos – o animal acaba sendo falsamente acusado, e, de maneira injusta, sacrificado por eles. Ao acompanharmos a história de Anuja, podemos dialogar os dilemas que a personagem enfrenta, mostrando como as decisões, ao mesmo tempo em que podem abrir um mundo de possibilidades, significam perdas irreversíveis.
Interpretada por Sajda Pathan, Anuja é uma órfã que trabalha clandestinamente em uma fábrica de roupas em Nova Delhi, na Índia, ao lado de sua irmã mais velha, Palak. A atuação de Pathan reflete a própria experiência de vida da atriz, que, antes de ingressar na atuação, viveu nas ruas de Delhi, onde, ao lado de sua irmã, recorria à mendicância para sobreviver.
A protagonista nos é apresentada como uma menina bastante esperta e talentosa, claramente a diferenciando do ambiente opressor da fábrica em que trabalha. E é nesse momento que surge para Anuja uma oportunidade de estudar em um colégio interno de elite, o Internato Williams. No entanto, com a oportunidade também vem o dilema – um que pode mudar o destino dela e de sua irmã.

O núcleo central da história gira em torno do vínculo profundo entre as irmãs, Anuja e Palak, e dos sacrifícios que estão dispostas a fazer uma pela outra. Cada olhar trocado por elas, cada gesto, tudo carrega o peso de uma vida precoce.
Filmado em locações reais de Nova Delhi, sem montagem de cenário, o curta se transforma em uma obra de arte que, ao mesmo tempo que denuncia, encanta e provoca reflexões profundas. Anuja vai muito além de ser apenas uma história comovente. A história narrada é uma clara crítica social à exploração do trabalho infantil e às limitações impostas á educação de meninas. Aqui, a educação é retratada como ferramenta de transformação, e evidencia as óbvias barreiras sistêmicas que perpetuam ciclos de pobreza. E a forte presença da pobreza somada a falta de acesso a escolas de qualidade levam famílias a depender de uma renda gerada pelo trabalho infantil.
ONGs estimam que 10 milhões de crianças entre 5 e 14 anos continuam sendo forçadas a trabalhar na Índia, mesmo com a Lei de Trabalho Infantil de 1986 – alterada significativamente em 2016 – que diz ser “estritamente proibido empregar crianças menores de 14 anos em qualquer ocupação ou processo”. Frequentemente, essas crianças enfrentam jornadas de até 14 horas diárias, recebendo remunerações ínfimas, extremamente abaixo do salário mínimo estabelecido.
Organizações como a Bachpan Bachao Andolan têm trabalhado para resgatar e reabilitar crianças em situações de exploração. Desta forma, destaco que a produção do curta contou com a colaboração de organizações comunitárias, como Salaam Baalak Trust, que oferece suporte a crianças de rua e trabalhadoras em Delhi. E foi exatamente por conta dessa colaboração que o filme conseguiu capturar de forma autêntica as experiências de crianças em contextos vulneráveis, uma realidade que a Sajda Pathan conheceu de perto.

Anuja é uma denúncia à vulnerabilidade infantil no país, e não oferece um desfecho animador ou ao menos esperançoso. A falta de uma estrutura social condena milhões de crianças a essa realidade, e o curta oferece uma reflexão profunda, abordando temas complexos de maneira sensível, porém impactante. Tal qual Mangusto, a escolha da protagonista não será somente para si e suas decisões vão impactar também o destino de sua irmã.
O curta está disponível na Netflix.






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