Cinebiografia expõe a dor, o perfeccionismo e sensibilidade de Michael Jackson ao revelar o ser humano por trás do maior astro do pop
Para quem acompanhou sua trajetória, seus mini filmes e, até mesmo, se emocionou ao assistir This Is It sonhando com tudo o que poderia ter sido, apenas alguns segundos são suficientes para nos levar direto para o universo construído pelo Rei do Pop.

Wanna be Startin’ Somethin’ traz uma sensação familiar potencializada pela presença de Jaafar Jackson em momentos em que não se é possível dissociar o ator das características semelhantes às de Michael. O caminhar, o olhar, a voz e a mesma paixão intensa pelo que faz, o filho de Jermaine abraça a história de seu tio com um carinho e dedicação profundos, permitindo que toda a magia do rei seja canalizada através de si.
É nesse momento que o filme mergulha em seu eixo mais doloroso, a infância que nunca existiu, e apresenta o garoto que nunca teve a oportunidade de ser uma criança de verdade. Que não teve amigos e não se sentia normal o suficiente para tê-los, que cresceu rodeado pela pressão de pertencer à família Jackson, liderada por Joseph como um quartel militar.
Michael não teve espaço para simplesmente ser e existir, assistindo a seus programas favoritos, como Charles Chaplin e Os Três Patetas. Ele queria ter sido apenas uma criança quando o transformaram em um fenômeno motivado pelo alcance da perfeição.

E essa aura é perceptível no ser humano frágil e vulnerável que ele se tornou. Revela um homem que, apesar de tudo, se tornou alguém capaz de oferecer amor em sua forma mais pura. Ainda assim, mesmo com sua história amplamente conhecida, a narrativa reforça como sua foi constantemente questionada e deslegitimada. A figura de Joseph permanece como uma figura constante, e o medo que Michael sente é notável em cada gesto – sobretudo naqueles mediados por terceiros. Michael nem mesmo se dirigia a ele como “pai”, não lhe era permitido.
E essa pressão constante em que vivia culminou em um dos momentos mais perturbadores de sua história: o comercial da Pepsi. O acidente foi o responsável por uma queimadura de terceiro grau que permitia momentos em que seus nervos ficavam expostos e provocava uma dor lancinante. Seu corpo é transformado em um campo de sofrimento contínuo, e ajudam a compreender sua posterior dependência de medicamentos como tentativa desesperada de alívio.

O perfeccionismo de Michael se evidencia no momento em que assume as rédeas de sua própria carreira. A construção de seus primeiros álbuns é inspiradora e intimidadora ao mesmo tempo, porque simplesmente não parece ser possível alguém como ele ter existido nessa realidade. Ele sabia exatamente o que e como queria, conhecia cada parte de seu corpo e os movimentos que partiam de sua extensão. A música era parte de um todo maior, de uma grandiosidade exalava apenas ao olhar o artista trabalhando.
Um dos maiores acertos do filme, sem sombra de dúvidas, foi a escolha de Jaafar Jackson para interpretar seu tio na fase adulta, o que fica ainda mais claro ao analisarmos momentos icônicos que foram recriados e cenas em que o ator canta ao vivo sobre as faixas originais de Michael, com edições que misturam as vozes para recriar o som autêntico, além de cantar a capela em cenas específicas.

As cenas em que Michael era apenas… Michael transmitem uma energia etérea e pura, de um alguém que entende a posição de privilégio que ocupa e sabe que pode fazer muito mais pelo próximo. Michael amou os animais intensamente, lutou pela natureza enquanto pôde e para que outros não precisassem sofrer, era apaixonada por seus cartoons e pelos sons contínuos que faziam morada em sua mente e e era alguém que, para além de qualquer disco de grande sucesso, só queria ser feliz e se divertir em sua tão sonhada Terra do Nunca.
Uma das relações também exploradas no filme é a Michael com Bill Bray, seu chefe de segurança. Inspirada na relação real entre os dois, Bill não é retratado apenas como um protetor do artista, mas também como um confidente e amigo próximo. Quando Bill faleceu, em 2005, Michael escreveu uma carta emocionada em homenagem a ele:
“Obrigado por ser meu pai. Eu não sei o que teria acontecido comigo se você não estivesse por perto. Te amo – MJ”.

Assistir ao filme não apenas fazer parte da história que ficou escondida atrás de uma mídia suja e abusiva; é também sentir toda a nostalgia das canções e dos momentos enquanto se lembra de ser uma criança com o disco tocando na vitrola da sala, dançando pelo tapete; ou de ser uma criança criada por essa mesma pessoa e crescer ouvindo suas histórias e músicas enquanto aprende a fazer o moonwalk.
É lembrar da primeira vez em que assistiu Thriller e quase fez xixi de calça de tanto medo; é lembrar de como é bom se entregar à música e simplesmente dançar noite adentro; é ser levado a uma memória linda e inabalável dentro de si mesmo com a trilha sonora perfeitamente afinada. Michael Jackson passou sua vida em busca da Terra do Nunca, mas espero que tenha percebido que foi o Peter Pan na vida de muitos de nós, hoje sentados na sala de cinema aplaudindo a obra-prima que se apresentou diante de uma sala IMAX esgotada.

A música que vibra por todo ambiente, que chega no fundo da alma e parece despertar todos os sonhos adormecidos, conecta todos ali a um mesmo sentimento de pura alegria. Uma alegria que é resultado de um reinado eterno e se manifesta em forma de lágrimas, palmas infinitas, no mover do corpo a cada nova música apresentada e na liberdade de simplesmente poder se levantar de seu assento e dançar exatamente como você fazia no tapete da sala.
Michael já está nos cinemas de todo o Brasil e tem seu primeiro dia de estreia marcado por salas lotadas e um público autêntico e apaixonado.
Enquanto os créditos rolavam, pouquíssimas pessoas saíram de seus lugares. Ninguém parecia querer que aquele momento acabasse. E o que se seguiu nos corredores do shopping foi um coral desarranjado e improvisado formado por sussurros, murmuros e vozes mais corajosas.
A história ainda não acabou, há muito do rei do pop para conhecermos. E que venha a parte dois para terminar de nos destruir.
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